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Luis E. Ribeiro - Roteiros, Redação e Webwriting

A Bailarina

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O roteiro a seguir foi escrito sob encomenda de um grupo de estudantes de uma faculdade de rádio & tv de uma faculdade de São Paulo.

O roteiro é sobre decisões difíceis para conseguir a felicidade e fugas que podemos escolher para não enxergamos o que queremos.

O roteiro retrata um homem relativamente jovem desanimado com sua vida que começa a ter enxaquecas e também experiências boas que podem enfim lhe trazer o ânimo que ele precisa para viver bem.

 

A BAILARINA

Escrito por Luis E. Ribeiro

INT.  ESCRITÓRIO  DE  FELIPE  -  TARDE

FELIPE,  um  homem  aparentando  30  anos  de  idade,  trabalha  em  sua  baia.  Na  tela do computrador dele  vemos  planilhas,  relatórios,  gráficos.  Ele  está  com  cabeça  apoiada  em  seu  braço  e  com  um  olhar  de  tédio.

Os  créditos  do  filme  aparecem  na  tela  do  computador  como  se  FELIPE  os  digitasse.

Ao  fim  dos  créditos,  MARCELO,  da  mesma  faixa  de  idade  de  Felipe,  aparece  em  sua  baia,  de  surpresa.  Ele  demonstra  empolgação  em  seu  sorriso.

MARCELO

Deu  o  horário  já.  Vamos.

FELIPE  se  levanta  lentamente  e  vai  arrumando  suas  coisas.

MARCELO

Vamos!  Vamos!

MARCELO  pega  as  coisas  de  Felipe  na  mesa  e  SAI.

FELIPE  olha  com  certa  reprovação.

INT.  CASA  DE  MARCELO  -  NOITE

FELIPE  e  MARCELO  estão  ao  redor  de  uma  mesa  com  mais  DOIS  AMIGOS.  Eles  estão  jogando  baralho  (Poker/Truco).  Todos  exceto  FELIPE  demonstram  empolgação  e  entusiasmo.

(Diálogo improvisado curto relacionado  ao  jogo de baralho)

FELIPE  perde  uma  rodada  e  faz  cara  de  dor.

MARCELO

Que  foi  Felipão?  Num  guenta  bebe  leite!  Heheh.

FELIPE

Cara  não  é  isso.  Dor  de  cabeça.  Vou  tomar  um  ar.  Já  volto.

FELIPE  vai  até  a  varanda  do  apartamento.  Felipe  respira  fundo.

POV  de  FELIPE:

EXT.  RUA  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  NOITE

A  rua  tem  pouco  movimento  por  ser  noite.  Uns  quatro  carros  passando  e  dois ou três  pedestres.  O  olhar  vai  para  a  esquina.  Muito  rapidamente  uma  BAILARINA  vira  a  esquina  e  sai  do  campo  de  visão.

DE  VOLTA  À  CENA  PRINCIPAL

FELIPE  faz  uma  cara  de  estranhamento  e  alguns  instantes  depois  a dor  dá  uma  pontada.  Logo  depois,  ele  se  sente  melhor.

MARCELO  (OFF  SCREEN)  Vai  jogar  essa  Felipão?

FELIPE

Vou.  Coloca  as  cartas  para  mim.

FELIPE  volta  para  a  mesa.

EXT.  FRENTE  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  NOITE

Felipe  cumprimenta  o  porteiro  meio  cambaleando  e  adentra  seu  prédio.

IN.  LOBBY  DO  PRÉDIO  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  NOITE

Felipe  sobe  alguns  degraus  e,  já  fora  do  campo  de  visão  do  porteiro,  cai  de  joelhos  no  chão.

ÁUDIO:  FREQÜÊNCIA  AGUDA  LEMBRANDO  A  NOTA  MAIS  ALTA  DE  UM  VIOLINO

Ele  se  esforça  muito  para  conseguir  chegar  até  a  porta  do  elevador.  Ele  estica  o  braço  para  segurar  a  maçaneta  e  quando  está  prestes  a  cair  uma  MÃO  COM  LUVA  BRANCA  surge  e  segura  sua  mão.

BAILARINA  (OFF SCREEN) 
Você  precisa  de  ajuda?  Você  está  se  sentindo  bem?

FELIPE

Estou  bem,  estou  bem.  É  só  uma  dor  de  cabeça.

FELIPE  cai.

POV  DE  FELIPE:  A  Bailarina  aparenta  ter  20  e  poucos  anos  e  veste  a  parte  de  baixo  rosa  e  de  cima  branca  de  seu  vestido  de  dançar.


FELIPE



(com

dificuldade  para  falar)


Você  mora

neste  prédio?  Eu acho

ai

que  já  te

vi  antes

ahhh



BAILARINA



Vem.  Vem.  Eu  te  ajudo.



A  mão  dela  puxa  ele

muito  suavemente.


INT.  ELEVADOR  DO  PRÉDIO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

FELIPE  está  desacordado  nos  ombros  da  bailarina.  O  elevador  está  parado  e  a  porta  do  elevador  está  aberta.

FELIPE  estica  o  braço,  desajeitado  e  aperta  um  número  no  painel do  elevador.

INT.  HALL  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

FELIPE  não  consegue  enfiar  a  chave  no  buraco  da  porta.  A  mão  da  bailarina  segura  a  sua  mão  e  o  ajuda.

INT.  COZINHA  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

FELIPE  pega  uma  cartela  de  um  analgésico  comum,  tira  um  e  toma.

FADE  PARA:

INT.  ESCRITÓRIO  DE  FELIPE  -  DIA

FELIPE  está  em  sua  baia  com  o  olhar  um  pouco  apertado,  demonstrando  estar  incomodado  com  uma  certa  dor.

MARCELO  aparece  de  surpresa.

MARCELO

Ficou  devendo  ontem.  Jogou  nada!

FELIPE

Foi  a  dor.

MARCELO

Dor,  sei..

FELIPE

Tá  foda.

MARCELO

Não  tinha  passado?

FELIPE

Voltou.  Quase  que  passo  a  noite  na  garagem.

MARCELO

Garagem?

FELIPE

Sei  lá.  Uma  moça  me  ajudou.

MARCELO

(fazendo  graça  e  cutucando  Felipe)  Hmmmm...  ah...  uma  moça  ajudou....

FELIPE

Não  consigo  lembrar  direito  agora.

MARCELO

Semana  que  vem  cê  vai  de  novo  jogar  com  a  gente,  não?

FELIPE

Sim...  sim.  Agora  vai  para  lá.

MARCELO  sai.

FELIPE  pega  uma  cartela  do  mesmo  analgésico  comum  da  outra  ocasião.  Tira um da cartela.


FELIPE faz uma careta de dor.

FELIPE  tira  mais  um  da  cartela  e  engole  os  dois  de  uma  vez,  tomando  um  gole  da  garrafinha  de  água  que  há  em  sua  baia.

POV  DE  FELIPE:  A  cabeça  se  move  fazendo  o  movimento  de  engolir  e  depois  se  vira  para  o  relógio  grande  de  parede  no  escritório.

INSERT:  CLOSE  DO  RELÓGIO.  São  duas  e  meia  da  tarde.

FELIPE  SUSPIRA

EXT.  PRÓXIMIDADES  DO  TRABALHO  DE  FELIPE  -  FIM  DE  TARDE/NOITE

FELIPE  tem  o  olhar  pesado,  demosntrando  dor  e  estresse.  Ele  caminha  sem  olhar  bem  para  onde  pisa  tromba  com  muitos  pedestres.  Um  TRANSEUNTE  se  irrita  e  tira  satisfações.

TRANSEUNTE  Olha  por  onde  anda,  maluco!

FELIPE

Vai  se  catar,  imbecil.

O  TRANSEUNTE  parte  para  cima  de  FELIPE  e  o  empurra  forte.

FELIPE  cai  no  chão  e  leva  a  mão  na  cabeça.  Ele  sente  a  dor  de  cabeça  no  chão.

Ele  fica  um  pouco  nessa  posição  e  um  certo  tempo  depois  começa  a  ajeitar  a  roupa. As  pessoas  ao  redor  nem  se  imprortam  com  ele  caído.

Quando  ele  começa  a  se  levantar,  ele  vê  a  BAILARINA  caída  sentada  à  sua  frente.  Ele  faz  uma  cara  de  espanto  e  consternação.

FELIPE

Eu  te  atingi!  Nem  percebi,  me  desculpe!  Você  está  bem?!  Me  deculpe,  de  verdade!

BAILARINA

Você  nem  chegou  perto.

A  BAILARINA  se  levanta  e  arruma  seu  vestido.

FELIPE

Venha  venha.  Você  me  ajudou  ontem.  Hoje,  eu  lhe  acompanho,  o  que  você  precisar,  para  onde  quiser.

A  BAILARINA  sorri.  Ela  começa  a  caminhar  e  ele  o  acompanha  a  seu  lado.

FELIPE

Ontem...  Me  desculpe  por  ontem.  Eu  estava-

BAILARINA

Não  tem  do  que  se  desculpar.  Você  faria  o  mesmo  por  mim,  não?

FELIPE

Não  é  isso...  eu  desmaiei  depois.  Nem  agradeci.

BAILARINA

A  gratidão  está  implícita.  (olha  ao redor)  Para  onde  você  estava  indo?

FELIPE

Para  casa...    Acho.

BAILARINA

Como  assim  "acho"?

FELIPE

Não  sei  se  você  sente  isso  também,  mas  quando  estamos  a  caminho  de  algum  lugar,  muitas  possbilidades  de  desviar  o  caminho  surgem.

Você  passa  por  uma  padaria  que  tem  uma  pão  recheado  que  você  adora,  passa  pela  casa  de  um  amigo  que  não  visita  há  tempos,  passa  pelo  teatro  do  espetáculo  que  está  tentando  ver  faz  semanas.  Mas  como  você  tem  um  destino,  um  objetivo,  você  segue  caminhando  até  chegar  onde  tem  que  chegar.  Não  entra  nesses  lugares.

(faz  uma  breve  pausa,  pensativo)

Para  onde  estamos  indo?

BAILARINA

(empolgada)

Eu  já  sei.  Hoje  você  não  vai  ter  destino,  então.  Você  vai  ter  que  parar  nesses  lugares.

FELIPE

Mas  você  não  tem  horário,  coisa  assim?

BAILARINA

Tenho  os  meus  destinos  também-

FELIPE

Então...

BAILARINA

-Mas  tenho  que  parar  também.

FELIPE

Onde  vamos  parar?

BAILARINA

Onde  VOCÊ  vai  parar...

FELIPE

Eu  não  sei.

BAILARINA

Pensa  assim,  se  hoje  fosse  seu  último  dia,  você  teria  que  fazer  tudo  o  que  deseja,  não?  O  que  você  QUER  fazer?

FELIPE

Não  sei.

FELIPE  olha  ao  seu  redor.

FELIPE  (CONT.)  (sem  muita  convicção)

Ali  tem  um  concerto  hoje.

BAILARINA

(empolgada)

Você  quer?

FELIPE

Sim....  na  verdade...  muito.

BAILARINA

Então  vamos  entrar.

FADE  OUT

INT.  CASA  DE  MARCELO  -  NOITE

MARCELO,  FELIPE  e  os  DOIS  AMIGOS  estão  reunidos  jogando  cartas  novamente.  Estão  todos  muito  animados  inclusive  FELIPE.


FELIPE

E  tem  umas  outras  coincidências  muito  incríveis.

MARCELO

Tirando  a  bizarrice  de  que  você  encontra  ela  sempre  com  a  roupa  do  balé?

Todos  RIEM.  FELIPE  fica  um  pouco  sem  graça.

AMIGO  1

Você  perguntou  porque  ela  está  sempre  com  essa  roupa?

FELIPE

Sim.

AMIGO  2

E  aí?

FELIPE

Ela  deu  a  melhor  resposta  possível.

Os  AMIGOS  se  entreolham.  FELIPE  calmamente  joga  ou  pega  uma  carta  na  mesa.

FELIPE

Ela  disse:  "Isso  realmente  importa?"

Os  AMIGOS  RIEM.

FELIPE fica um pouco cabisbaixo.

Os  AMIGOS  continuam  RINDO  ALTO.

MARCELO

Se  isso  é  um  traço  de  "psicopatia"  dela  e  ela  costuma  matar  pessoas  vestida  de  bailarina,  realmente  a  roupa  é  o  de  menos  na  questão.

Os  AMIGOS  RIEM  MAIS  ALTO  AINDA.  FELIPE  demonstra  um  certo  desconforto  e  leva  a  mão  a  cabeça.

FELIPE  busca  a  bolsa  e  pega  uma  cartela  dos  analgésicos.  Sem  que  os  amigos  vejam,  ele  tira  4  comprimidos  e  toma  todos  de  uma  vez,  junto  com  o  resto  de  sua  cerveja.  MARCELO  apenas  percebe  que  ele  tomou  remédio.

MARCELO

A  cabeça  de  novo?

FELIPE

Mais  ou  menos.

MARCELO

Não  tinha  passado?

FELIPE

Mais  ou  menos.  Vamos  outra  rodada  logo.

MARCELO

Você  precisa  ver  isso,  você  não  está  conseguindo  produzir  nada  no  trabalho.  Fica  esperto.

FELIPE

(sorridente)

Não  se  preocupe.  Enquanto  houver  amor,  nada  me  faltará.

MARCELO

(fala  mais  perto  do  ouvido  dele,  mais  baixo)

Eu  estou  falando  sério.  Eu  acho  que  estão  pensando  em  te  cortar.  Você  anda  meio  desligado.

INT.  ELEVADOR  DO  PRÉDIO  DE  FELIPE  -  HORAS  DEPOIS

Felipe  está  sentindo  muita  dor  na  cabeça.  Abre  a  bolsa  e  vê  muitas  cartelas  de  analgésicos.  Todas  vazias.

INT.  HALL  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

Felipe  mal  consegue  segurar  a  chave  de  seu  apartamento  e  coloca  na  fechadura  com  muita  dificuldade.  Ao  fazer  a  força  para  girá-la  ele  GEME  FORTE  de  dor.

INSERT:  CLOSE  DA  FECHADURA

A  MÃO  COM  LUVA  BRANCA  DA  BAILARINA  APARECE  para  ajudá-lo.

FADE  PARA:

INT.  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MANHÃ

POV  DE  FELIPE:  Entrando  em  foco,  como  se  ele  estivesse  abrindo  os  olhos  pela  primeira  vez  no  dia,  está  a  BAILARINA  de  ponta  cabeça.

FELIPE  está  deitado  no  chão  da  entradinha  de  seu  apartamento,  a  porta  do  apartamento  está  aberta  e  o  hall  está  relativamente  visível.

BAILARINA

Vim  passar  o  dia  com  você.

FELIPE  abre  um  sorriso  grande.

INT.  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  POUCO  DEPOIS


FELIPE  está  mais  arrumado  sentado  à  poltrona.  A  BAILARINA  está  a  seu  lado.  Ela  olha  para  o  filme  e  olha  para  ele.

FELIPE  está  muito  sorridente.

FELIPE

(sorrindo)

Olha  essa  parte.  É  a  melhor.

Os  dois  RIEM.  Ela  olha  para  ele.

FELIPE

(ainda  rindo)

Não  não.  Olha  lá.  Essa  é  a  melhor.

Os  dois  RIEM.

A  BAILARINA  levanta  e  dá  uns  pequenos  passos  de  dança.  Ele  olha  muito  sorridente  para  ela.

FELIPE

(empolgado)  Espera.  Eu  tive  uma  idéia.

FELIPE  sai  e  volta  com  um  case  de  violino.  Ele  abre  e  retira  o  violino.

BAILARINA

Eu  adoro  violino.

FELIPE  começa  a  tocar.

A  BAILARINA  dança.

Após  um  certo  tempo  da  dança  e  da  música  o  violino  chega  a  uma  nota  bem  aguda.

ÁUDIO:  A  NOTA  AGUDA  DO  VIOLINO  SE  ESTENDE  E  FUNDE-SE  COM  UM  SOM  DE  MÁQUINA  DE  BATIMENTOS  CARDÍACOS  QUE  DETECTOU  QUE  UM  CORAÇÃO  PAROU  DE  BATER.

A  imagem  da  bailarina  dançando  se  distorce.

FADE  OUT

INT.  QUARTO  DE  FELIPE  -  MANHÃ

FELIPE  está  deitado  na  cama  do  quarto  de  sua  casa.  Ele  está  com  a  barba  maior  do  que  normalmente  (uns  3  dias  sem  ter  feito).  A  MÃE  DE  FELIPE  está  próxima  da  cama.  FELIPE  acorda.

FELIPE

Mãe...  Mãe...  Mãe?

A  MÃE  DE  FELIPE  se  levante  e  aproxima  da  cama.

MÃE  DE  FELIPE

Felipe,  meu  filho.  Como  está  se  sentindo?

FELIPE

O  que  aconteceu?  Por  que  você  esta  aqui-

FELIPE  começa  a  se  levantar  na  cama.  Ao  fazer  isso  sente  uma  pontada  forte  de  dor  na  cabeça.  Ele  GEME  ALTO  de  dor.

FELIPE

....  E  a  bailarina?  Ela  está  com  você?

Após  essa  frase  brotam  lágrimas  nos  olhos  da  MÃE  DO  FELIPE.  Ela  passa  a  mão  na  cabeça  dele.

Um  MÉDICO  ENTRA.  Ele  traz  uma  pasta  cheia  de  exames  e  uma  prancheta  com  alguns  papéis.

MÉDICO

Olá  Felipe.

FELIPE

Doutor  Ricardo?  O  que  houve?  (para  a  mãe)

O  que  está  acontecendo?  (para  o  Médico)

Por  que  o  senhor  está  aqui?

FELIPE  fica  inquieto  se  mexendo  e  sente  a  dor  na  cabeça  novamente.

FELIPE  (CONT.)  O  que  aconteceu  comigo?

MÉDICO

Então  Felipe,  tenho  notícias  não  tão  agradáveis  a  lhe  dar.  Mas  já  saiba  de  antemão  que  todo  o  tratamento  já  está  encaminhado  e  que  a  cura  é  algo  com  altíssima  probabilidade.

FELIPE

Fale  logo!

Felipe  está  com  cara  de  dor  e  com  a  mão  na  cabeça.

O  Médico  pega  em  seus  papéis  alguns  exames  e  mostra  a  FELIPE.  Felipe  olha  sem  entender  o  que  os  papéis  querem  dizer.  O  Médico  sente  dificuldade  para  falar  se  distancia  e  fica  de  costas  para  Felipe.

MÉDICO

Está  dor  que  você  está  sentindo  na  cabeça  é  um  tumor.

FELIPE

(surpreso)  O  que?!?

MÉDICO

Sua  mãe  me  chamou  e  eu,  conhecendo  você  há  tanto  tempo,  supervisionei  todos  os  exames.  Já  marquei  com  um  neuro  muito  bom,  muito  próximo  a  mim  e  já  agendamos  a  cirurgia  para  removê-lo  daqui  a  duas  semana.  Nesse  meio  tempo,  você  vai  tomando  um  remédio  que  vai  diminuir  o  tumor  e  aliviar  sua  dor.

O  Médico  pega  uma  prancheta  com  papéis.

MÉDICO  (CONT.)

Já  resolvi  tudo  pelo  seu  convênio.  Um  motoboy  vai  entregar  os  remédios  aqui  sempre  que  precisar.

O  Médico  entrega  um  papel  para  FELIPE  assinar.

MÉDICO  (CONT.)  Assine  aqui.

FADE  PARA:

INT.  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  HORAS  MAIS  TARDE

FELIPE  está  ao  telefone,  de  pijama.

FELIPE

Amanhã  mesmo  eu  já  volto  praí  pro  escritório.  (...)

(rindo)

Não  não...  hoje  não  vou  para  o  baralho.  Não  rola,  tou  meio  grogue  ainda.  Para  apanhar  de  vocês  não  vale  a  pena  sair  de  casa  ainda.

A  CAMPAINHA  TOCA.  O  som  dela  irrita  um  pouco  Felipe  que  volta  sentir  uma  certa  dor.

FELIPE

Tenho  que  desligar.  Depois  você  me  conta  melhor.  Abraço.

Felipe  vai  até  a  porta  e  a  abre.

INT.  HALL  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

Felipe  avista  o  PORTEIRO  com  um  saquinho  na  mão  e  atrás  dele  a  BAILARINA.

PORTEIRO

O  motoboy  pediu  para  você  assinar  isso.

FELIPE  está  sorridente.  Ele  pega  o  saco  primeiro  e  vê  que  são  os  remédios.  Então  ele  pega  a  prancheta  do  porteiro  e  começa  a  assinar.  Olhando  para  a  prancheta  ele  começa  a  falar  com  a  bailarina.

FELIPE

Você  sumiu.  Fiquei  preocupado.

PORTEIRO

Não,  sabe  o  que  foi,  deu  uma  gripe  lá  na  região.  Todo  mundo  pegou.

FELIPE  dá  risada  e  entrega  a  prancheta  para  o  porteiro.  Ele  olha  sobre  o  ombro  do  porteiro  e  vê  a  BAILARINA  sorrindo.

FELIPE

Obrigado.

O  porteiro  olha  para  trás  para  onde  Felipe  olhava,  volta  a  olhar  para  Felipe.  Faz  cara  de  indiferença  e  vai  para  o  elevador.

INT.  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

A  BAILARINA  passa  por  ele  dançando  e  sorrindo.

Ele  dança  com  ela.  Eles  CANTAROLAM  a  melodia  do  VIOLINO.  Ele  está  com  o  saquinho  do  remédio  na  mão.  E  ainda  alegremente  ele  abre  o  saquinho  e  busca  um  frasco  do  remédio.

Ele  começa  a  abrir  o  frasco  e  ela  faz  carinho  nele  enquanto  ele  faz  isso.  Ele,  sorridente,  toma  o  comprimido  e  beija  a  mão  dela  com  a  luva.

Ela  volta  a  dançar  distante  dele.  Ele  fica  assistindo.  Ele  pega  o  violino  e  volta  a  tocar  a  melodia.

Ela  dança.

Ele  para  de  tocar.

FELIPE

Sabe.  Você  me  faz  tão  bem.  Hoje.  Agora.  Este  instante.

FELIPE  vai  se  aproximando  da  Bailarina.  Ela  começa  a  dançar   mal.  Ela  quase  cai.  FELIPE  corre  e  a  segura  em  seus  braços.

FELIPE

Pela  primeira  vez  acho  que  estou  respirando.  Estou  aliviado,  a  dor  na  cabeça  está  passando.  Acho  que  foi  sua  vinda  para  cá  hoje.  Só  pode  ser.

A  Bailarina  se  contorce.

FELIPE

O  que  Você  tem?  (preocupado)

O  que  está  acontecendo?  O  que  você  está  sentindo?

BAILARINA

(sussurrando  com  dores)  Eu  tenho  que  ir.

A  bailarina  se  levanta  num  ímpeto  e  sai  correndo  em  direção  a  porta  do  apartamento.  Ela  ATRAVESSA  a  porta  sem  abrir.

Felipe  cai  sentado.  URRA  de  dor  em  sua  cabeça.  Deita-se  com  as  mãos  na  cabeça.

FADE  OUT

INT.  ESCRITÓRIO  DE  FELIPE  -  DIA

Felipe  está  com  um  olhar  triste,  distante.  Um  alarme  de  seu  celular  toca.  Ele  olha  para  o  celular,  desliga-o.

Ele  busca  sua  bolsa  e  pega  de  dentro  o  frasco  do  remédio.

Tira  um,  engole-o  com  a  água.

MARCELO  aparece.  FELIPE  coloca  o  frasco  do  remédio  em  cima  da  mesa  para  cumprimentar  Marcelo.

MARCELO

Acorda!  Que  cara  é  essa?  Tá  com  dor?

FELIPE

Nem,  a  dor  realmente  passou.  O  remédio  é  bom.

MARCELO

Preocupado  com  a  cirurgia?

FELIPE

Verdade.  É  depois  de  amanhã,  mas  também  não  é  isso.

MARCELO

É  mulher?

Felipe  desvia  o  olhar.

MARCELO  (CONT.)

É  mulher??

Marcelo  busca  o  olhar  de  Felipe.  Depois  parece  lembrar  de  algo  e  desisite.

MARCELO  (CONT.)

Não  é  da  bailarina?

Felipe  olha  com  cara  de  bravo  para  Marcelo.

MARCELO  (CONT.)

Cara!  Da  Bailarina?  Você  não  falou  que  ela  atravessa  parede?

Marcelo  RI

FELIPE

Eu  não  sei.  Eu  tava  grogue  de  remédio.

(lamentando)

Ela  é  a  coisa  mais  viva  que  eu  já  senti.

MARCELO

Procura  ela  onde  você  já  a  encontrou  antes.  Só  não  se  esquece  que  hoje  tem  baralho.  Eu  já  tou  indo  para  lá.  Se  for  atrás  dela,  não  demora.

FELIPE

Vou  sair  agora  também  então.

Felipe  desliga  rapidamente  o  micro,  pega  sua  bolsa  e  SAI.

EXT.  PRÓXIMIDADES  DO  TRABALHO  DE  FELIPE  -  FIM  DE  TARDE/NOITE

FELIPE  caminha  relaxadamente,  de  braços  abertos,  pelas  proximidades  de  seu  trabalho.  Ele  se  esforça  para  tentar  esbarrar  em  pessoas,  entrando  na  linha  de  caminho  deles.

Ele  esbarra  com  várias  pessoas  de  um  grupo.  O  TRANSEUNTE  2  deste  grupo  o  aborda.

TRANSEUNTE  Qual  é  o  seu  problema?

Dois  TRANSEUNTES  deste  grupo  o  arremessam  para  longe.  Ele  esbarra  em  uma  pessoa  de  rosa.

Ele  sorri.

Conforme  ele  vai  se  levantando,  percebe  que  não  é  a  bailarina.

FELIPE  sai  correndo.

INT.  CASA  DE  MARCELO  -  NOITE

FELIPE  está  com  MARCELO  e  os  DOIS  AMIGOS  na  mesa,  jogando  baralho.  FELIPE  está  bastantate  desanimado.

AMIGO  1

E  daí  quando  a  gente  arrombou  a  porta  viu  você  lá  estirado.

AMIGO  2

Parece  que  ficou  dois  dias  lá  desmaido.

FELIPE

(indiferente)  Nem  percebi.

MARCELO

Primeira  coisa  que  passou  pela  cabeça  foi  que  você  tinha  tomado  um  porre  saindo  daqui  ou  algo  assim.

AMIGO  1

Pelo  menos  a  gente  não  teve  que  te  pegar  no  banheiro  abraçado  na  privada.

AMIGO  1  cutuca  AMIGO  2.  TODOS  RIEM  EXCETO  FELIPE.

O  ALARME  DO  CELULAR  de  Felipe  TOCA.

Felipe  vai  até  a  bolsa  e  procura  pelo  frasco  de  comprimidos.  Ele  vira  tudo  e  não  encontra.

FELIPE

Marcelo,  você  viu  meu  remédio?

MARCELO

Aquele  que  você  tava  tomando  lá  no  escritório?

FELIPE

Isso.

MARCELO

Não  vi  não.

Felipe  para  e  pensa.

INSERT:  FLASHBACK  DO  REMÉDIO  SENDO  DEIXADO  NA  MESA  DE  FELIPE  E  ELE  SAINDO  RÁPIDO.

Felipe  começa  a  sentir  dor  na  cabeça.

Felipe  volta  à  mesa  para  jogar,  mas  seu  olhar  agora  é  mais  de  apreensão  do  que  tristeza.

FELIPE

Me  passa  uma  cerveja,  por  favor.

EXT.  RUAS DA CIDADE  -  NOITE

FELIPE  caminha rápido.

POV  DE  FELIPE:  Ele  avista  sempre  um  pedaço  de  roupa  rosa  virando  as  esquinas  antes  de  ele  virar,  mas  quando  ele  vira  não  há  ninguém  na  rua.

Ele coloca a mão na cabeça e seu rosto demonstra cada vez mais dor.

INT.  ELEVADOR  DO  PRÉDIO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

FELIPE  está  desesperadamente  aperando  o  botão  de  seu  andar.  Ele  encosta  a  cabeça  na  parte  de  trás  do  elevador.  Ele  perde  o  equilíbrio  mas  se  segura.

INT.  COZINHA  DO  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MOMENTOS  DEPOIS

FELIPE  está  procurando  em  gavetas  os  frascos  do  remédio.

Ele  encontra  vários,  vai  abrindo  um  a  um  e  todas  estão  vazios.

Ele  está  cambaleando,  se  apoia  numa  prateleira,  derruba  algumas  coisas  entre  elas  o  case  do  violino.

Ele  cai  deitado  de  modo  a  ficar  olhando  o  case.  Dá  um  pequeno  sorriso.

Ele  se  vira  para  o  outro  lado.

POV  de  FELIPE:  A  BAILARINA  ESTÁ  DEITADA  A  SEU  LADO  OLHANDO  PARA  ELE  SORRINDO

Felipe  sorri  longamente.  Seus  olhos  enchem  de  lágrima.

Ele  se  aproxima  dela  eles  seguram  a  mão  um  do  outro.  Começam  a  fazer  carinho  um  no  outro.  Se  abraçam  carinhosamente.  Se  olham  de  novo.  Se  beijam.

INT.  APARTAMENTO  DE  FELIPE  -  MANHÃ

Felipe  está  dormindo  no  chão  da  cozinha.  Seu  CELULAR  TOCA.

FELIPE

Alo?

MÉDICO  (FILTERED)

Felipe,  sou  eu.  Doutor  Ricardo.  É  sobre  sua  cirurgia  de  amanhã.

FELIPE

Sim.  Fale...  Foi  adiada?

MÉDICO  (FILTERED)

Não,  nada  disso.  São  algumas  orientações  gerais.

A  CAMPAINHA  TOCA

FELIPE

Hm...

Felipe  caminha  em  direção  à  porta  do  apartamento.

MÉDICO  (FILTERED)

Traga  uma  malinha  com  algumas roupas,  roupas leves.

Felipe  abre  a  porta,  é  o  porteiro  com  o  saquinho  do  remédio.  Ele  pega  a  prancheta,  assina  rapidamente.  Agradece  com  um  movimento  de  cabeça.

FELIPE

Certo.

MÉDICO  (FILTERED)

E  hoje  sem  comer  nada  gorduroso.  Sem  fazer  atividades  físicas  pesadas  e,  claro,  nada  alcoólico.

Felipe  fuça  o  saco  e  pega  um  frasco  do  remédio.

FELIPE

Certo.  E  como  é  o  esquema  amanhã.  Que  horas?

Felipe  pega  um  comprimido  do  frasco.  E  fica  olhando  para  ele.  O  comprimido  é  metade  branco  e  metade  rosa.

MÉDICO  (FILTERED)

Tá  na  sua  guia.  8  da  manhã.

FELIPE

Ok  então.  Nos  vemos  amanhã.

MÉDICO  (FILTERED)

Até  amanhã.

Felipe  desliga  o  tel.  Ele  vai  colocar  o  remédio  na  boca.  Quando  ele  está  a  um  instante  de  soltar  o  remédio  ele  para  e  fica  pensativo.

Ele  distancia  o  remédio  da  boca  e  começa  a  observá-lo.

INSERT:  CLOSE  DO  REMÉDIO  NA  PALMA  DA  MÃO  DE  FELIPE.  Ele  pega  o  remédio  com  a  outra  mão,  o  posiciona  como  se  fosse  a   bailarina  e  dá  uma  pequena  girada.

Felipe  está  com  lágrimas  nos  olhos.  Ele  coloca  o  comprimido  na  mesa  mais  próxima  e  sai  em  direção  ao  quarto.

Ele  pega  uma  mala  e  começa  a  separar  roupas.

FELIPE  SAI

INT/EXT.  FELIPE  VIAJANDO  -  MONTAGEM

Felipe  caminha  ao  longo  de  muito  tempo.  Vemos  a  paisagem  ao  fundo  pela  manhã.  Ao  sol  cheio.  Entardecendo.  E  de  noite.

INT/EXT.  FRENTE  DE  UM  HOTEL  -  NOITE

Felipe  entra  em  um  hotel.

INT.  QUARTO  DO  HOTEL  -  NOITE

Felipe  joga  sua  mala  sobre  a  cama.  Abre  e  começa  a  vasculhar  dentro  dela.  Ele  pega  o  saco  onde  ficam  os  frascos  do  remédio  e  vai  para  o  banheiro.

Ele  pega  um  comprimido  de  um  frasco  e  o  coloca  sobre  a  pia.  Ele  senta  sobre  a  privada  fechada  e  coloca  a  cabeça  em  suas  mãos.

Ele  olha  para  o  comprimido.

INSERT:  Close  no  comprimido.

A  dor  de  cabeça  o  tormenta.  E  ele  faz  cara  de  dor.

ÁUDIO:  UM  SOM  AGUDO  TIPO  O  DO  VIOLINO  INICIALMENTE  IRRITANTE  VAI  SE  SUAVIZANDO.

A  feição  dele  de  dor  vai  mudando  para  alívio  acompanhando  o  áudio.

Ele  se  levanta  calmamente  e  levanta  a  tampa  da  privada.  Joga  o  comprimido  que  estava  separado  lá.  Abre  os  outros  frascos  e  despeja  lá  também.

Ele  sai  do  baneheiro  e  vai  em  direção  à  mala.  De  dentro  tira  o  case  do  violino  e  de  dentro  dele  o  próprio  violino.

Ele  se  senta  a  beira  da  cama  e  começa  a  tocar  modificando  o  áudio  que  acompanhava  a  cena.

A  câmera  vai  abrindo  e  vemos  que  A  BAILARINA  se  aproxima.

FADE  OUT

FIM


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Última atualização ( Dom, 19 de Outubro de 2008 18:20 )